segunda-feira, 5 de janeiro de 2009

A derradeira traição

A derradeira traição

Mandar rapazes e moças para o outro lado do mundo, equipados com as armas mais terríveis que existem ? e que, no entanto, não os põem a salvo de ações de guerrilheiros que os irão deixar cegos ou inválidos ? é a última traição do governo americano para com seu povo e sua juventude

Howard Zinn

Normalmente se omite que, para cada soldado morto, quatro ou cinco foram gravemente feridos

Não consigo esquecer a foto publicada na primeira página do New York Times, de 30 de dezembro de 2003, como ilustração de um artigo de Jeffrey Gettleman. Mostrava um rapaz sentado numa cadeira, de frente para os alunos de uma turma de sexta série numa escola de Blairsville, no Estado da Pensilvânia. De pé, a seu lado, estava uma mulher. Não era a professora, mas a mãe do rapaz. Estava ali para o ajudar, pois ele era cego.

Aquele jovem de 24 anos, sargento nos Rangers do exército, chama-se Jeremy Feldbusch. No dia 3 de abril, quando montava guarda numa barragem do rio Eufrates, teve o rosto atingido pelos estilhaços de uma bomba que explodiu a cerca de trinta metros de onde ele estava. Quando saiu do coma, cinco semanas após ter sido internado num hospital militar, tinha perdido a vista. Duas semanas depois, foi condecorado com as comendas Purple Heart e Bronze Star, mas continuava cego. À cabeceira de sua cama, seu pai disse: “Com certeza, Deus achou que você já tinha visto matanças demais.”

Naquele mesmo dia, os jornais noticiavam que 470 soldados norte-americanos já haviam perdido a vida durante aquela guerra. Mas o que normalmente não é dito é que, para cada soldado morto, quatro ou cinco foram gravemente feridos.

Tragédias escondidas

Quantos dos “gravemente feridos” – três mil, ou mais – não voltaram cegos, ou com as pernas ou os braços amputados?

A expressão “gravemente feridos” está longe de refletir a realidade em todo seu horror. Charlene - a mãe do sargento Feldbusch e que, nos últimos dois meses, passa praticamente todo seu tempo ao lado do marido, à cabeceira do filho ferido - um dia viu uma jovem com uniforme militar que se arrastava pelos corredores do hospital, acompanhada de seu filho de três anos. Tinha as duas pernas amputadas.

Charlene chorou. Mais tarde, disse a Gettleman: “Você não imagina o número de vezes que percorri esses corredores, passando por pessoas sem pernas e sem braços, e pensando: ‘Por que não poderia ocorrer isso com meu filho? Por que seus olhos?’”

Quantos desses homens “gravemente feridos” – três mil, ou mais, neste momento – não voltaram cegos, ou com as pernas ou os braços amputados? Há pouco tempo, em entrevista ao canal de televisão C-Span, a atriz Cher declarou que havia passado o dia no hospital Walter Reed, de Washington, com soldados que voltavam da guerra. “Quando cheguei ao hospital, a primeira pessoa com que deparei era um rapaz, de dezenove ou vinte anos, que tinha perdido os dois braços. [...] Ali, todo mundo perdeu um braço, ou uma perna, e, às vezes, ambos. [...] Se não existiam motivos para fazer tal guerra, acho que esta é a coisa mais escandalosa que já vi. [...] E também me pergunto por que [...] Cheney, Wolfowitz, Bremer, o presidente, enfim, por que eles não tiram fotografias com toda essa gente? Não compreendo por que escondem tão cuidadosamente essas pessoas. [...] É inacreditável.”

Em defesa do petróleo

A guerra por petróleo foi vendida à opinião pública e aos soldados como se fosse algo que nunca foi

Mandar esses rapazes e moças para o outro lado do mundo, para o meio de um país estrangeiro, equipados com as armas mais terríveis que existem – e que, no entanto, não os põem a salvo de ações de guerrilheiros que os irão deixar cegos ou inválidos – não constituiria a derradeira das traições cometida por nosso governo para com nossa juventude?

Muitas vezes, os pais compreendem isso antes que seus filhos, ou filhas, e discutem com eles antes de sua partida. Foi o que fez Ruth Aitken, que tentou convencer seu filho que se tratava de uma guerra pelo petróleo, enquanto ele, capitão do exército, afirmava que iria proteger seu país do terrorismo. Morreu no dia 4 de abril, durante um tiroteio nas cercanias do aeroporto de Bagdá. “Ele estava fazendo seu trabalho”, disse ela, antes de acrescentar: “Mas o que me enlouquece é saber que essa guerra toda foi vendida à opinião pública e aos soldados como se fosse algo que nunca foi”.

Em Baltimore, o pai de Kendall Waters-Bey, sargento dos fuzileiros navais, acenava, diante das câmeras de televisão, com uma foto de seu filho morto, declarando: “Presidente Bush, o senhor me tomou meu único filho.” [...] Em Escondido, na Califórnia, Fernando Suarez del Solar, declarou aos jornalistas que seu filho, cabo dos fuzileiros navais, morreu em defesa do “petróleo de Bush”.

Massacre e colapso no Iraque

O exército invasor limitou-se a assistir à destruição e pilhagem de monumentos históricos iraquianos

É claro que não foram só pais e filhos que foram traídos. O povo iraquiano, a quem se prometera libertar da tirania, viu seu território, já devastado por duas guerras e dez anos de sanções internacionais, atacado pela maior potência militar da história. Os militares norte-americanos anunciaram orgulhosamente essa operação “Choque e Pavor”, que fez mais de dez mil vítimas, entre homens, mulheres e crianças, sem contar milhares de feridos, lançando o país numa situação de colapso total. O exército invasor, tão eficiente quando se trata de destruir, limitou-se a assistir, em seguida, à destruição e pilhagem de monumentos históricos iraquianos.

A lista de traições é longa. Este governo traiu as esperanças que o mundo depositava na paz. Após os 50 milhões de mortos da II Guerra Mundial, foi criada a Organização das Nações Unidas e sua Carta de Princípios promete “preservar as gerações futuras do flagelo da guerra”.

O povo norte-americano foi traído porque, apesar do fim da guerra fria e do desaparecimento da “ameaça comunista” – que servia para justificar o desvio de trilhões de dólares para o orçamento militar –, continua a pilhagem da riqueza nacional. E continua às custas dos doentes, das crianças, dos idosos, dos sem-teto, dos desempregados, varrendo, dessa maneira, a esperança – nascida após o colapso da União Soviética – de que “os benefícios da paz” pudessem garantir a prosperidade geral.

História de traições

As mentiras começam no passado e chegam hoje aos jovens enviados para a guerra com discursos sobre liberdade e patriotismo

E voltemos, para terminar, à derradeira das traições, a traição desses jovens enviados para a guerra com promessas grandiosas e discursos mentirosos sobre a liberdade e a democracia, sobre o dever e o patriotismo. Nossa cultura histórica é muito limitada para permitir que nos lembremos de que essas promessas e mentiras começaram bem longe, em nosso passado nacional.

Rapazes – na verdade, quase crianças, pois todos os exércitos do mundo, inclusive o nosso, sempre foram compostos por crianças – foram atraídos para o exército revolucionário dos Pais Fundadores, inspirados pela retórica grandiosa da Declaração da Independência. Mas compreenderam rapidamente que tinham sido enganados. Enquanto seus uniformes se transformavam em trapos andrajosos e não tinham mais botas, seus oficiais viviam na luxúria e os comerciantes se enriqueciam com a guerra. Milhares deles se amotinaram e alguns foram executados por ordem do general Washington. Terminada a guerra, quando os lavradores endividados da região a oeste de Massachusetts – alguns deles, ex-combatentes – se recusaram a entregar suas terras, foram subjugados pela força das armas.

História clássica da traição desses mesmos que hoje enviam jovens à guerra para matar e morrer. Mas quando os soldados compreendem, se revoltam. Durante a guerra contra o México, milhares de soldados desertaram. Durante a guerra de Secessão, houve um profundo ressentimento quando se viram os ricos pagando para fugir ao alistamento e financistas, como J. P. Morgan, engordando seus lucros à medida que se empilhavam os corpos nos campos de batalha. Os soldados negros que se juntaram ao exército nortista – e tiveram um papel decisivo na vitória da União – voltaram para casa, para a pobreza e o racismo.

Os veteranos esquecidos

Depois do Vietnã, cem mil famílias entraram com a ação judicial devido aos efeitos sofridos com o “agente laranja”

Os veteranos da I Guerra Mundial – que, em grande parte, voltaram para casa inválidos e traumatizados – foram duramente atingidos, doze anos depois, pela Grande Depressão. Vinte mil dentre eles, desempregados e com suas famílias passando fome, marcharam sobre Washington e acamparam na margem oposta do rio Potomac. Exigiam que o Congresso pagasse as compensações financeiras que lhes haviam sido prometidas. Ao invés disso, foram dispersados pelo exército com tiros e gás lacrimogêneo.

Talvez com o intuito de fazer com que fossem esquecidos esses terríveis acontecimentos – a menos que fosse devido à euforia pela vitória esmagadora sobre o fascismo –, os soldados desmobilizados da II Guerra Mundial foram beneficiados pelo famoso GI Bill, que lhes garantiu acesso gratuito aos estudos, empréstimos imobiliários e um seguro de vida com juros razoáveis.

Já os veteranos do Vietnã, de volta ao país, rapidamente compreenderam que o mesmo governo que os jogara numa guerra imoral e inconseqüente, deixando-os traumatizados física e psicologicamente, só pensava em esquecê-los do modo mais rápido possível. Os Estados Unidos espalharam, em várias regiões do Vietnã, o famoso “agente laranja”, um pesticida que provocou centenas de milhares de mortes entre a população vietnamita, assim como cânceres e deformações entre os bebês.

Inúmeros soldados norte-americanos também foram expostos e dezenas de milhares deles, preocupados com doenças que os acometeram e problemas de má-formação em seus bebês recém-nascidos, procuraram ajuda junto ao Departamento de ex-Combatentes. Mas o governo negou qualquer responsabilidade. No entanto, foi aberto um processo contra a Dow Chemical, que produzia aquele desfolhante químico, que terminou num acordo amigável no valor de 180 milhões de dólares. Como cada família recebeu mil dólares, é possível supor que mais de cem mil famílias tenham entrado com a ação judicial devido aos efeitos sofridos com o “agente laranja”.

Herança amarga da guerra

Os que voltam cegos ou inválidos percebem que o governo Bush está cortando orçamentos destinados a ex-combatentes

Se, por um lado, o governo gasta centenas de bilhões de dólares com a guerra, por outro, não dispõe de dinheiro para ajudar os veteranos do Vietnã que vivem na rua, que apodrecem nos hospitais militares, que sofrem perturbações psicológicas e se suicidam em proporções assustadoras... É essa a herança amarga da guerra.

Após a guerra do Golfo de 1991, o governo norte-americano vangloriava-se de que, enquanto do lado iraquiano o número de vítimas fora de quase 100 mil, as vítimas do lado norte-americano haviam sido de apenas 148 soldados. O que o governo não revelou à opinião pública foi que 200 mil veteranos entraram com ações na justiça devido a doenças ou ferimentos adquiridos em conseqüência dessa guerra. Durante os doze anos que se seguiram, 8.300 ex-combatentes morreram e o Departamento de ex-Combatentes recebeu – e aceitou – 160 mil ações reivindicatórias por invalidez.

A traição aos soldados e ex-combatentes prossegue com a chamada “guerra ao terrorismo”. As promessas de que os libertadores norte-americanos seriam recebidos com flores se evaporaram e soldados são diariamente assassinados pela guerrilha iraquiana, o que significa claramente que eles não são bem-vindos ao Iraque. Num artigo publicado no final do mês de julho de 2003 pelo Christian Science Monitor, um oficial da 3ª divisão de Infantaria lotado no Iraque declarava: “Falando francamente, o moral da maioria dos soldados que encontrei estava muito baixo”.

E os que voltam vivos, mas cegos ou inválidos, percebem que o governo Bush está cortando os orçamentos destinados a ex-combatentes. Embora siga agradecendo aos que estão servindo no Iraque, Bush continua, em seu discurso sobre o estado da União, a omitir o número dos que voltaram gravemente feridos dessa guerra cada vez mais impopular.

Para não esquecer

O que nos pedem hoje os veteranos que voltam dessa guerra é que as pessoas não esqueçam

A visita-relâmpago que o presidente fez ao Iraque por ocasião do Dia de Ação de Graças, e que a imprensa transmitiu com tanta generosidade, foi interpretada de maneira bastante distinta por uma enfermeira militar da base de Landstuhl, na Alemanha, para onde são encaminhados os feridos. Eis o que ela diz: “Minha ‘ação de graças presidencial’ foi um pouco diferente. Eu a passei num hospital para dar assistência a um jovem tenente de West Point ferido no Iraque. [...] Quando ele apertava os olhos com seus punhos, balançando a cabeça para trás e para a frente, parecia um garotinho. Todos os meus dezenove feridos de hoje parecem garotinhos, mas perderam uma perna, um braço, a visão e até coisas mais graves. [...] Realmente, foi uma pena que Bush não pudesse convidar-nos para a festa. [...] Os rapazes concordam comigo, mas vocês jamais irão ler isso nos jornais.”

Quanto a Jeremy Feldbush, que ficou cego nessa guerra, Blairsville, uma velha cidade mineira de 3.600 habitantes, festejou sua volta e o prefeito o cumprimentou. Lembrou-me o protagonista do livro Johnny got his gun, de Dalton Trumbo1 , um soldado cego e sem as duas pernas. Estendido em sua maca, sem conseguir falar ou ouvir, ele relembra a festa organizada em sua cidade por ocasião de sua partida para a guerra e de todos os belos discursos sobre a honra de combater em defesa da liberdade e da democracia.

Quando, finalmente, consegue uma forma de se comunicar em código Morse por meio de movimentos com a cabeça, ele pede às autoridades que o levem a todas as salas das escolas do país para mostrar às crianças a realidade da guerra. Mas as autoridades não respondem. “Naquele instante terrível, ele compreendeu tudo. Elas só queriam uma coisa: esquecê-lo.”

De certa maneira, o livro de Trumbo nos pedia – como fazem hoje os veteranos que voltam dessa guerra – que as pessoas não esqueçam.

(Trad.: Jô Amado)

1 - Ler, de Dalton Trumbo, Johnny s’en va-t-en guerre (edição francesa), ed. Actes Sud, Arles, 2004. Publicado anteriormente por Editions Solin, Paris, 1987, e Editions du Seuil, Paris, 1993.

Fonte clique aqui.

“Barões ladrões”, há cem anos...

Artigo orginalmente publicado no dia 1º de setembro de 2002

“Barões ladrões”, há cem anos...

O historiador norte-americano Howard Zinn lembra, num livro recém-lançado na França, o final do século XIX, marcado, em seu país, pela ditadura econômica e social dos “barões ladrões”. A importância da obra tornou-se ainda maior com os novos escândalos financeiros sacodem os EUA. O Diplô reproduz algumas páginas

Howard Zinn

Na virada do século, a AT & T detinha o monopólio da rede telefônica, enquanto a International Harvest controlava 85% do mercado de material agrícola

Nos manuais de história norte-americanos, encontram-se poucos vestígios dos conflitos de classes do século XIX. Os períodos anterior e posterior à Guerra de Secessão (1860-1865) costumam ser abordados apenas sob o ponto de vista das questões políticas, eleitorais ou raciais. Mesmo quando tratam das relações sociais e econômicas, esses manuais concentram-se na função presidencial e perpetuam, dessa forma, o tradicional enfoque em nossos “heróicos dirigentes”, em detrimento das lutas populares.

Alexis de Tocqueville declarou-se surpreso pela “igualdade quase completa de condições” entre os norte-americanos. Seu amigo Beaumont lembra que ele não era muito bom em cálculo. Na Filadélfia, contavam-se em média 55 famílias operárias por imóvel e, na maioria das vezes, havia uma família por cômodo, sem coleta de lixo, sem banheiro, sem ventilação e sem torneiras. A água corrente, bombeada do rio Schuylkill, destinava-se exclusivamente às residências dos ricos. Em Nova York, podiam-se ver miseráveis dormindo pela calçada. Nos casebres, não existia sistema algum para eliminar a água suja, que, depois de escorrer pelos quintais e vielas, inundava os porões onde moravam os mais pobres dos pobres. A cidade viveu uma epidemia de febre tifóide em 1837 e outra de tifo em 1842. Durante uma epidemia de cólera que atingiu a Filadélfia, em 1832, os ricos abandonaram a cidade, mas os pobres ficaram e morreram em grande número.

De acordo com um relatório do Senado do início do século XX, Morgan, no auge de sua glória, pertencia a 48 diretorias de empresas; e Rockefeller, a 37

Em todos os setores industriais, astuciosos e eficientes homens de negócios erguiam impérios, livravam-se da concorrência, mantinham preços elevados e salários baixos, aproveitando-se do apoio financeiro dos poderes públicos. Esses industriais foram os primeiros beneficiários do chamado “Estado de bem-estar social”. Na virada do século, a American Telephone and Telegraph detinha o monopólio da rede telefônica nacional, enquanto a International Harvest detinha 85% do mercado de material agrícola. Em todos os setores, os recursos eram cada vez mais concentrados e controlados. Os bancos tinham dinheiro aplicado em tantos trustes, que promoveram uma rede de grandes empresários que, ao mesmo tempo, eram membros da diretoria de outras empresas. De acordo com um relatório do Senado do início do século XX, Morgan, no auge de sua glória, pertencia a 48 conselhos de administração; e Rockefeller, a 37.

Teoricamente neutro, o Estado servia os interesses dos mais ricos, reprimia a revolta dos desfavorecidos e adotava políticas destinadas a garantir a estabilidade do sistema. Quando o democrata Grover Cleveland se candidatou à Presidência, em 1884, pensava-se que, ao contrário do Partido Republicano, cujo candidato defendia os ricos, ele se oporia ao poder dos monopólios e das grandes empresas. Mas quando Cleveland foi eleito, um dos grandes empresários da época lhe telegrafou dizendo que tinha “o sentimento de que os interesses da elite dos negócios [estariam], com ele, em boas mãos”. Não se enganava. O próprio Cleveland fez questão de tranqüilizar os industriais: “Durante todo o tempo em que eu for presidente, nenhuma medida administrativa prejudicará os interesses dos negócios. A transferência do Executivo de um partido para outro não significa mudanças muito grandes.”

Teoricamente neutro, o Estado servia os interesses dos ricos, reprimia os desfavorecidos e adotava políticas que garantissem a estabilidade do sistema

A campanha fora parecida com as outras: a mesma vontade de dissimular as semelhanças fundamentais entre os dois partidos, insistindo na personalidade dos candidatos, na maledicência e em outras bobagens. Henry Adams, observador impiedoso de sua época, escreveu a um de seus amigos que a vida política era ainda “mais estranha do que se poderia imaginar. O mais engraçado é que ninguém trata dos verdadeiros problemas. A imprensa lançou-se num debate hilariante para saber se Cleveland tem um filho ilegítimo e mais de uma amante”.

Em 1887, quando o Tesouro norte-americano apresentava um superávit, Cleveland vetou um decreto que previa conceder cem mil dólares aos agricultores do Texas, vítimas da seca. “Em ocasiões como essas”, declarou, “a ajuda federal incentiva a expectativa de um apoio governamental paternal e enfraquece o vigor do caráter nacional.” No mesmo ano, Cleveland utilizou esse excedente em ouro para pagar, 28 dólares acima de seu valor, títulos na posse de indivíduos que, eles sim, não estavam passando necessidade.

O republicano Benjamin Harrison sucedeu Cleveland entre 1889 e 1893. Foi descrito nos seguintes termos em The Políticos, pitoresco estudo dos anos posteriores à Guerra de Secessão: “Harrison tinha a particularidade única de ter servido às companhias ferroviárias tanto como advogado como soldado. Depois de ter organizado e comandado o destacamento de soldados durante a greve [de 1887], perseguiu os grevistas na Justiça Federal.” Votada em 1980, a Lei Sherman, antitruste, pretendia “proteger as trocas e o comércio contra concentrações ilegais” e proibir a constituição de qualquer “aliança ou coalizão” que pudesse por em risco as trocas entre os Estados ou o comércio internacional. O redator da lei explicava: “É verdade que em outros tempos também havia monopólios, mas nunca como os gigantes de hoje. Vocês devem ouvir a voz [dos adversários] ou terão o socialismo, o comunismo, o niilismo.” Quando Cleveland foi reeleito presidente, em 1892, o grande magnata Andrew Carnegie, então na Europa, recebeu a seguinte carta do diretor-geral de suas usinas siderúrgicas: “Sinto muito pelo presidente Harrison, mas não vejo em quê nossos interesses poderiam ser afetados por essa mudança de governo.”

Quando o democrata Grover Cleveland se candidatou à Presidência, pensou-se que, ao contrário dos republicanos, ele se oporia ao poder dos monopólios

Envolta na toga negra e austera da Justiça, a Suprema Corte também servia a elite dirigente. Como poderia ela ser independente, se seus membros – freqüentemente veteranos homens da lei saídos das mais altas esferas da sociedade – eram nomeados pelo presidente e confirmados pelo Senado? Em 1893, um deles, o juiz David J. Brewer, declarou à Associação dos Advogados do Estado de Nova York: “É uma lei inquestionável que a riqueza de toda a comunidade fique nas mãos de poucas pessoas. [...] A grande maioria dos homens é incapaz de suportar esse sacrifício permanente que é o único que permite acumular riquezas. [...] Desse modo, amanhã como ontem - a menos que a natureza humana mude profundamente – a riqueza da nação continuará nas mãos de alguns eleitos, enquanto a massa da população suprirá as necessidades com seu trabalho diário.”

Em 1895, a Suprema Corte chegou à conclusão de que a Lei Sherman não impedia o monopólio nas refinarias de açúcar, visto que era exercido na área de produção e não na de comércio do produto. Em compensação, a lei permitiu reprimir as greves atingindo vários Estados ao mesmo tempo, porque, aí, se tratava de entrave ao comércio. Uma tímida tentativa parlamentar destinada a aumentar os impostos sobre rendas altas foi considerada inconstitucional. Em 1895, um banqueiro nova-iorquino brindou a Suprema Corte com a seguinte frase: “Eu vos saúdo, guardiães do dólar, defensores da propriedade privada, inimigos da espoliação, fiadores da República.”

A Suprema Corte sempre serviu a elite dirigente. Como poderia ser independente, se seus membros eram nomeados pelo presidente e confirmados pelo Senado?

Nos anos 1880-1890, imigrantes vindos da Europa chegavam em grande número. Entre eles, a concorrência econômica era feroz. “Importados” pelas companhias ferroviárias para executar os trabalhos mais ingratos em troca de um salário de fome, os imigrantes chineses representavam aproximadamente um décimo da população californiana em 1880. Sofreram violências constantes. O romancista Bret Harte redigiu o epitáfio de um chinês chamado Wan Lee: “Ele está morto, caríssimos amigos. Morto. Apedrejado nas ruas de São Francisco, no ano da graça de 1869, por uma multidão de adolescentes e estudantes cristãos.” Em Rock Spring (Estado de Wyoming), brancos atacaram quinhentos chineses menores de idade durante o verão de 1885, massacrando a sangue frio 28 deles.

Ainda que muito pequeno e esfacelado pela luta interna, o Socialist Labor Party, fundado em 1887, contribuiu para a sindicalização dos trabalhadores estrangeiros. Em Nova York, os socialistas judeus tinham um jornal. Em Chicago, os revolucionários alemães, em colaboração com alguns norte-americanos radicais, fundaram clubes que queriam a revolução social. Em 1883, em Pittsburgh, houve um congresso anarquista. Seu manifesto afirmava: “Todas as leis são contra os trabalhadores. (...) Mesmo a escola só serve para cultivar nos filhos dos ricos a capacidade necessária para a manutenção de sua dominação de classe. Os filhos dos pobres recebem apenas um ensino elementar e formal, destinado, principalmente, a promover os preconceitos, a arrogância e o servilismo, em suma, a mais completa insensibilidade. A Igreja procura, acima de tudo, transformar os indivíduos em perfeitos imbecis e desviá-los da busca do paraíso na Terra em troca de uma imaginária felicidade celeste. Por sua vez, a imprensa capitalista alimenta a confusão dos espíritos no que se refere à vida política. [...] Portanto, em sua luta contra o sistema vigente, os trabalhadores não devem esperar nenhuma ajuda dos agentes capitalistas. Nenhuma classe privilegiada abdicou voluntariamente, em tempo algum, de sua tirania.” Esse manifesto, que também exigia “direitos iguais para todos, sem distinção de sexo ou de raça”, retomava o Manifesto do Partido Comunista: “Proletários de todo o mundo, uni-vos!” Todos esses grupos revolucionários, entre os quais existiam muitas divergências doutrinárias, foram, com freqüência, obrigados a se entender por ocasião dos inúmeros conflitos trabalhistas ocorridos na década de 1880.

Em Rock Spring (Estado de Wyoming), brancos atacaram quinhentos chineses menores de idade durante o verão de 1885, massacrando a sangue frio 28 deles

No início de 1886, a Texas and Pacific Railroad demitiu um dirigente da assembléia local dos Cavaleiros do Trabalho. Iniciou-se, então, uma greve que logo se estendeu a todo o sudoeste dos Estados Unidos, limitando seriamente o tráfego ferroviário até Saint Louis e Kansas City. Nove jovens – recrutados em Nova Orleans para garantirem a manutenção da ordem e a proteção dos bens da companhia – recusaram-se a continuar sua missão. E declararam: “Na condição de seres humanos, não podemos aceitar trabalhar para tirar o pão da boca de outra pessoa, ainda que esse pão nos fosse recusado.” Detidos a pedido da companhia ferroviária por abuso de confiança, foram condenados a três meses de prisão. Os grevistas passaram à sabotagem. Um telegrama vindo de Atchison (Kansas) anunciava: “De manhã, os vigias do Missouri Pacific Railroad foram surpreendidos por cerca de quarenta homens mascarados. Em seguida, os vigias foram mantidos afastados por um pequeno grupo de homens armados de pistolas [...], enquanto os outros danificavam seriamente doze locomotivas estacionadas nos hangares.”

Em abril de 1886, uma batalha feroz estourou entre policiais e grevistas nos bairros do leste de Saint Louis, deixando sete mortos entres os manifestantes. Como represália, os grevistas incendiaram os entrepostos da companhia ferroviária Louisville & Nashville. O governador decretou lei marcial e enviou para o local setecentos soldados da Guarda Nacional. Submetidos a prisões em massa, à violência dos xerifes e seus auxiliares, abandonados pelos trabalhadores mais qualificados e mais bem pagos das Confrarias dos Ferroviários (Railroad Brotherhoods), os grevistas não puderam agüentar por muito tempo. Desistiram depois de alguns meses de luta. Muitos deles passaram a integrar listas negras.

Em abril de 1886, uma batalha feroz estourou entre policiais e grevistas nos bairros de Saint Louis, deixando sete mortos entres os manifestantes

No dia 1° de maio de 1886, a American Federation of Labor (AFL), fundada cinco anos antes, convocou para uma greve nacional todos os que tivessem a jornada de oito horas recusada. Em Chicago, no Haymarket, um destacamento de policiais avançou para ordenar aos oradores que acabassem com a reunião. O orador respondeu que já estava terminando. Então, uma bomba explodiu no meio dos policiais, deixando setenta feridos, dos quais sete acabaram morrendo. A polícia reagiu atirando na multidão, matando, por sua vez, várias pessoas e deixando duzentos feridos.

Foram presos oito dirigentes anarquistas de Chicago. Só um deles estava presente no Haymarket, naquela noite. O júri os julgou culpados e os condenou à morte. Houve manifestações na França, na Holanda, na Rússia, na Itália e na Espanha. Em Londres, George Bernard Shaw, William Moriss e Piotr Kropotkin participaram de uma manifestação de protesto. Shaw reagiu da seguinte maneira ao fato da Suprema Corte de Illinois ter recusado o recurso contra a sentença: “Se o mundo deve, necessariamente, perder oito habitantes, que sejam os oito juízes da Suprema Corte de Illinois.”

Um ano depois desse processo, quatro dos anarquistas condenados – Albert Parsons (tipógrafo), August Spies (tapeceiro), Adolph Fischer e George Engel – foram enforcados. Louis Lingg, um jovem carpinteiro de 21 anos, matou-se em sua cela com uma banana de dinamite. Os outros três continuaram presos até receber o indulto. Em todo o país, a cada ano, organizaram-se manifestações em memória dos mártires do Haymarket. Bem mais tarde, em 1968, um grupo de jovens radicais explodiu o monumento de Chicago dedicado aos policiais mortos em 1886.

(Trad.: Denise Lotito)


Retirado da página do Le Monde-visite clicando aqui.

domingo, 28 de dezembro de 2008

Uma entrevista de 2004.

Entrevista de Howard Zinn
a Miguel Álvarez Sánchez, de Contracorriente
Entrevista originalmente publica no dia
23-11-2004

Howard Zinn. Contracorriente: Vamos começar por falar de livros.

Howard Zinn: Está bem.

Contracorriente.: Porque escreveu a História popular dos Estados Unidos ?

HZ: Escrevi-a porque estava a dar aulas de História, aulas de História Norte-americana, e procurava um livro que representasse o meu ponto de vista. Isto foi nos anos 70, depois dos movimentos sociais dos anos 60 e desses movimentos sociais criarem o desejo por um ponto de vista que fosse diferente do dos livros tradicionais, ortodoxos. Foi depois do movimento pelos direitos cívicos, depois da Guerra do Vietname, que as pessoas se tornaram mais críticas da política interna, da política externa; mas não havia livros de História Geral dos Estados Unidos que reflectissem essa nova ideia, essa nova crítica. Então, eu procurava um livro assim, as pessoas perguntavam-me se conhecia algum, pessoas que tinham participado no movimento dos anos 60 pediam-me que lhes recomendasse um livro que tivesse um ponto de vista radical e pensei, não, na realidade não sei de nenhum; então decidi: “Vou escrevê-lo”. Às vezes é por isso que se escrevem livros, procura-se um livro, não há e escreve-se. Escrevi-o porque queria contar a história dos Estados Unidos, não do ponto de vista dos presidentes, nem do Supremo Tribunal, nem do Congresso; esta era a forma tradicional, a história tradicional... Olhe, é que tudo se baseia nos presidentes. É irónico porque se se pressupõe que somos uma democracia, não se pode pressupor que devemos exaltar o líder máximo; mas aqui os historiadores diziam: Oh, devemos falar dos próceres, sobre George Washington, sobre John Adams, devemos falar sobre Jefferson e Lincoln, etc, etc. E sobre as pessoas comuns? Todos estes historiadores ortodoxos contam a história do desenvolvimento económico norte-americano mas sempre a partir do ponto de vista dos heróis da indústria: Carnegie Rockfeller, Morgan; foram eles que fizeram a grandeza dos Estados Unidos. Mas estes historiadores não dizem nada sobre as pessoas que trabalharam na refinaria de petróleo de Rockfeller, as pessoas que trabalharam nas siderurgias de Carnegie, as pessoas que trabalharam nos caminho de ferro. Imigrantes irlandeses, imigrantes chineses que trabalharam muitas horas, com um salário baixo e muitos morreram. Estas pessoas foram omitidas da história e eu criei-me numa família de classe humilde.

Comecei a trabalhar aos 18 anos num estaleiro naval. Normalmente, nas famílias da classe média e, naturalmente, nas famílias da classe alta, quando se tem 18 anos, vai-se para a universidade, mas quem pertence a uma família da classe humilde vai trabalhar. Fui trabalhar para um estaleiro e aí comecei a interessar-me pela pessoas trabalhadoras, pela leitura, e comecei, com outros jovens, a organizar os trabalhadores do estaleiro, de modo que tomei consciência e interessei-me pelo movimento dos trabalhadores. Por isso queria escrever a história dos Estados Unidos trazendo à luz os trabalhadores, as lutas operárias, as greves... A maioria dos jovens que vão para a escola nos Estados Unidos não aprendem que houve grandes greves, que foram as lutas operárias que ganharam a implantação da jornada laboral de 8 horas. Se não se conhecem essas greves, essas lutas, pensar-se-á que aquela jornada foi estabelecida pelo Congresso, o Presidente ou, quem sabe?, Deus. Mas não, esta ganhou-se graças às lutas dos trabalhadores, daí eu querer escrever sobre isso. Também os negros foram omitidos, porque embora se falasse de escravatura, realmente não se falava do ponto de vista dos escravos e, inclusivamente, nos anos 30 até saiu um livro famoso de História Norte-americana, escrito por dois famosíssimos professores de Harvard e de Columbia, em que se dizia que o esclavagismo foi útil porque preparou os negros para a liberdade.

Contracorriente: Quem é Howard Zinn? É um radical?

HZ: Espero que sim, mas a palavra radical é frequentemente mal utilizada. Nos Estados Unidos tem-se uma ideia muito vaga do que é ser radical e, por vezes usam a palavra radical como extremista; para mim a palavra radical significa chegar à raiz do problema, mais profundamente que a crítica comum. Por exemplo, esta é a diferença entre um ponto de vista liberal e um ponto de vista radical...

Contracorriente: Qual é a diferença?

Dou-lhe alguns exemplos da diferença: de um ponto de vista liberal diria: “Vamos dar melhor seguro de saúde a mais pessoas; vamos, talvez, dar mais incentivos aos empresários para que proporcionem mais benefícios de saúde aos seus empregados”. De um ponto de vista radical diria: “não vamos mais através dos empresários nem das companhias de seguros, vamos pôr a saúde grátis para todos”. Agora outro exemplo da actualidade. De um ponto de vista é: “Bom a guerra do Iraque não está a ir bem, há uma forma melhor de combater, vamos envolver mais países...”

Contracorriente: Essa é a abordagem de Kerry.

HZ: Exactamente, essa é a abordagem de Kerry: “Vamos envolver as Nações Unidas”. A lógica é extraordinária, se a guerra é imoral, vamos deixar que mais pessoas se unam a esta imoralidade. De um ponto de vista radical, se a guerra é imoral, saiam do Iraque, parem a guerra. Enfrentámos esta mesma situação durante a Guerra do Vietname...

Contracorriente: Diga-nos qualquer coisa sobre o período do Vietname. O que significou para o povo norte-americano?

HZ: Bom, para os norte-americanos, o período do Vietname foi algo sem precedentes na história norte-americana. Nada como isto havia acontecido antes, com o que quero dizer que não houve movimento contra a guerra que fosse tão amplo, tão grande, como no tempo do Vietname. Nas guerras levadas a cabo pelos Estados Unidos sempre tivemos dissidentes, rebeldes que protestavam, inclusivamente na guerra de independência. Todos dizem que foi uma guerra maravilhosa, uma boa guerra, mas, inclusivamente aí, houve muitos norte-americanos que não acreditavam que a guerra revolucionária era para eles, os negros não acreditavam que era para eles, os índios tão-pouco. Os soldados pobres que se uniram ao exército revolucionário não estavam seguros de que esta guerra os beneficiaria, porque sabiam que havia uma classe colonial rica e que, provavelmente, seria a mais beneficiada. Sim, houve ideias e acções dissidentes durante a guerra revolucionária, e é assim em todas as guerras. Na guerra mexicana de 1846-48 em que os Estados Unidos ocuparam quase metade do México, houve soldados norte-americanos que desertaram, se negaram a combater e por aí afora. Na Primeira Guerra Mundial houve uma grande oposição e inclusivamente na Segunda Guerra Mundial que é a chamada “guerra boa”, inclusivamente nela, houve quem dissesse que a guerra não era a solução. Mas nunca houve um movimento tão grande, tão forte, contra uma guerra, como o movimento contra a Guerra do Vietname. Começou lento, começou pequeno; De facto, no início só pequenas manifestações foram levadas a cabo e nós dizíamos: “Nunca vamos ganhar”; “Nunca vamos poder travar o governo dos Estados Unidos”; O governo dos Estados Unidos é muito poderoso”; “Esta é a maior missão militar na Terra, como vamos detê-la ?”; mas o movimento cresceu, cresceu, cresceu.

Contracorriente: Porquê? Porque os norte-americanos estavam a morrer, estavam a perder vidas? É essa a razão?

HZ: Creio que havia muitas razões, sim, porque os norte-americanos estavam a morrer, mas não creio que essa tivesse sido a única razão, porque se tivesse sido a única, isso significaria que aos norte-americanos não lhes importava o que sucedia ao povo do Vietname. E se é certo que ao governo dos Estados Unidos não lhe importava o que sucedia ao povo do Vietname, de facto ao governo também não lhe importava o que sucedia aos norte-americanos. Mas creio que sim, as baixas, as crescentes baixas de norte-americanos no Vietname tiveram um grande efeito no público norte-americano. Mas houve algo mais, foi que o povo norte-americano tornou-se mais e mais consciente de que os Estados Unidos estavam a fazer coisas terríveis no Vietname. Começaram a ver fotografias de marines na televisão, deitando fogo às choças, nas aldeias; viam um marine americano, corpulento, apontar uma pistola a uma pequena mulher vietnamita acompanhada dos filhos. Foi algo que comoveu as pessoas, e depois inteiraram-se do massacre de My Lay. Inteiraram-se um ano mais tarde porque a imprensa é sempre mais lenta a contar estas coisas, porque o massacre de My Lay foi em 1968 e só em 1969 é que saiu na imprensa norte-americana. Então, o povo norte-americano viu fotografias horríveis de soldados norte-americanos a assassinar centenas e centenas de mulheres e crianças vietnamitas. Tal como as vidas norte-americanas perdidas contribuíram para o movimento contra a guerra, também contribuiu o crescente convencimento de que o que estava a suceder no Vietname era desumano e incorrecto. Agora o povo conhecia mais sobre a guerra, conhecia mais sobre as razões da guerra, começou a notar que lhe estavam a mentir, muitas destas coisas estão agora a suceder no Iraque.

Por exemplo, o incidente que provocou a guerra no Verão de 1964, o chamado incidente do Golfo de Tonkin, em que o Governo norte-americano disse: “O Vietname do Norte disparou contra destroyers norte-americanos”, etc, etc, “devemos ir para a guerra”. Bem, inteirámo-nos que era mentira e conheceram-se mais mentiras, uma mentira típica como esta: “só estamos a bombardear pontos militares”, mentira típica. Então foi a crescente consciência do povo que contribuiu para o movimento contra a guerra, os seus líderes imprimiram jornais alternativos, organizaram concentrações e conferências. Por outras palavras, educaram o povo norte-americano a respeito da guerra. Mas, inclusivamente mais importante que o trabalho que os líderes do movimento estavam a realizar, mais importante ainda, é que a realidade que estava a suceder no Vietname estava a chegar ao povo norte-americano.

Contracorriente: Bem, estávamos a falar do Vietname. Gostava que me falasse sobre os documentos do Pentágono, porque o meu amigo Weinglass disse-me que foi uma das testemunhas do julgamento.

HZ: Sim, admito-o, fui testemunha. Os documentos do Pentágono foi um dos mais interessantes da Guerra do Vietname, melhor, um dos episódios mais interessantes da história norte-americana, porque foi um acontecimento excepcional com alguém que tinha um alto cargo no governo e que, de repente, deu uma volta e expôs todos os segredos do governo: Daniel Ellsberg, com a ajuda de Tony Russo. Ambos trabalhavam para a RAND Corporation. A RAND Corporation é o que chamam um cérebro, um grupo de intelectuais contratados para trabalhar para o governo. Fornecem-lhe informações, por exemplo Anthony Russo, trabalhava com Daniel Ellsberg, cujo trabalho na RAND Corporation era interrogar prisioneiros vietcong. Quando os interrogava aprendeu uma coisa muito importante que mudou as suas ideias sobre a guerra. Deu-se conta que aquelas pessoas, que tinham sido soldados da Frente de Libertação Nacional do Vietname, sabiam porque estavam a lutar. Entendiam porque se fazia a guerra, enquanto os soldados do Exército do Vietname do Sul, que estavam a trabalhar com os Estados Unidos, não sabiam porque a faziam. Isto fê-lo mudar de ideias. Daniel Ellsberg era um graduado por Harvard, tinha várias licenciaturas, tinha trabalhado no Departamento de Estado, trabalhou na RAND Corporation com o Departamento de Defesa, havia sido marine no Vietname e, quando ali esteve, viu coisas que o perturbaram, sobre o que os Estados Unidos estavam a fazer no Vietname e decidiu que a guerra era incorrecta. Assim, quando regressou aos Estados Unidos e a RAND Corporation lhe deu um trabalho encomendado pelo Departamento de Defesa, que consistia em organizar a história da Guerra do Vietname, a história secreta, baseada em documentos do governo... Ele foi fazer este trabalho e, quando leu estes documentos, convenceu-se mais do que nunca, que os Estados Unidos estavam a fazer uma coisa errada no Vietname. Leu coisas assim: “O Governo do Vietname do Sul não é um Governo independente, é uma criação dos Estados Unidos”. Os Estados Unidos diziam que só estavam a bombardear pontos militares e ele encontrou evidências de que os bombardeamentos eram para destruir a moral da população civil. Essa experiência fê-lo decidir pegar naqueles papéis secretos, 7.000 páginas, fotocopiá-los e distribuí-los entre o povo. Foi assim que ele, e o seu amigo Anthony Russo resolveram fazer isso em segredo.

Contracorriente: E qual foi o seu papel no assunto?

HZ: Tinha que me tornar amigo de Daniel Ellsberg. Ele tinha saído da RAND Corporation, do governo, tinha começado a falar em comícios contra a guerra. Conheci-o num deles, tornámo-nos amigos, a mulher dele, da minha. Naquela altura eles viviam em Cambridge, na zona de Boston, onde eu vivia, e um dia estávamos, minha mulher e eu no seu apartamento em Cambridge e ele disse-me: “Tenho uma coisa a dizer-te, tenho uns papéis que ninguém conhece, queres vê-los”? E passou-me um monte de papéis, e eu li-os. Depois prenderam-no, e acusaram-no de violar a Lei de Espionagem, que diz que não se pode publicitar informação nem documentos que possam prejudicar a defesa nacional. Prenderam-no por isso, a ele e ao Anthony Russo, tendo sido condenado a 130 anos de cadeia. Parece uma loucura, 130 anos, 13 penas de 10 anos cada. Como o levaram a juízo em Los Angeles, a mim chamaram-me como testemunha de defesa, porque havia lido os documentos do Pentágono e, por isso, tinha de explicar ao Júri o que diziam esses documentos ; estive 5 horas a depor, contando-lhes a história da guerra do Vietname. Essas pessoas eram norte-americanos típicos, sabiam muito pouco da guerra, contei-lhes essa história, grande parte do que estava escrito nesses documentos . O que tinha de fazer era contar ao Júri a história da guerra e explicar-lhes porque é que esses papéis não eram prejudiciais para os Estados Unidos, para o povo dos Estados Unidos, mas eram uma vergonha para o Governo e era por isso que o governo os queria manter secretos.

Contracorriente: Vamos falar do 11 de Setembro. O que é que se passou depois? O que é que mudou nos Estados Unidos?

HZ: Como toda a gente sabe o 11 de Setembro foi um acontecimento catastrófico. Nada como aquilo havia sucedido antes nos Estados Unidos, nunca, em dia algum. Foi um safanão para o povo norte-americano e, claramente, os terroristas eram responsáveis, tudo bem. Bush acabara de ser eleito Presidente, era o novo Presidente. A pergunta era: Como vai Bush reagir a isto?, o qual imediatamente disse: “Vamos declarar guerra ao terrorismo”. Como se pode declarar guerra ao terrorismo? O terrorismo não é um país... Não se pode dizer: “Vou declarar guerra a este lugar, vou bombardeá-lo, e os terroristas serão vencidos”. Não há terroristas por todo o lado. De facto o próprio Governo dos Estados Unidos disse: “Há terroristas em muitos países do mundo, em 30 ou 40 lugares diferentes do mundo”.

Contracorriente: E mencionaram mais de 60.

HZ: Sim, estão sempre a mudar o número, mas o problema é que o terrorismo não é uma coisa que se possa combater com uma guerra. Na altura já estava claro, não para o povo norte-americano que estava a aceitar..., ou para a imprensa, que também estava a aceitar esta ideia da guerra contra o terrorismo, mas estava claro para muitos de nós, não passava de um mecanismo, um truque para permitir que o governo dos Estados Unidos fizesse o que já queria fazer antes do 11 de Setembro: aumentar o seu poder no Médio Oriente. Por isso, a primeira coisa que Bush faz é bombardear o Afeganistão. Milhares de pessoas morreram, milhares de cidadãos morreram, centenas de milhares de afegãos tiveram que abandonar as suas terras. Diz que está à procura de Osama bin Laden, que é a cabeça do terrorismo. Nunca o encontra, mas já morreu toda esta gente. Esta é a guerra contra o terrorismo. A guerra contra o terrorismo é absurda, porque se se analisar inteligentemente, não se pode lutar contra o terrorismo bombardeando este ou aquele país. A única forma de lidar com o terrorismo é formular a pergunta: quais são as causas do terrorismo, as raízes do terrorismo? O que é que motiva estes terroristas? Além do mais, esta não é a única experiência histórica com o terrorismo. O IRA, na Irlanda, cometeu actos terroristas e os britânicos responderam-lhes da mesma forma que Bush, com a força. Isso não deteve o IRA. Finalmente os ingleses tiveram que reconhecer que havia qualquer coisa mais por detrás desse terrorismo. Há uma grande afronta por trás do terrorismo, a afronta do IRA é que os britânicos estão a ocupar o seu país. Têm que se fazer qualquer coisa com respeito a isso, se querem resolver qualquer coisa no que diz respeito ao terrorismo.

Tomemos a situação de Israel, terrorismo, bombas suicidas. O governo israelense, Sharon, responde a isso da mesma forma que Bush, com a força. Para que serve? Isso detém as bombas suicidas? Não, aumentam. A única forma que Israel tem de deter o terrorismo, é pensar que tem de eliminar a causa do terrorismo, e esta causa é a ocupação dos territórios palestinos. Só isto vai parar o terrorismo. Por isso, para os Estados Unidos, a questão importante é o que move estes terroristas, e não é difícil dar-se conta de qual é: A política norte-americana no Médio Oriente, os exércitos de ocupação norte-americanos no Médio Oriente, o apoio dos Estados Unidos a Israel, que é muito importante para todos no Médio Oriente, as sanções que os Estados Unidos estavam a apoiar no Iraque, que consistiam em matar centenas de milhares de pessoas. Isto são ofensas, ofensas genuínas, ofensas reais. Por isso, se realmente o terrorismo os preocupa, têm de fazer qualquer coisa acerca destas ofensas, mas os Estados Unidos não querem fazer nada porque, então, teriam que mudar a sua política externa, teriam que ser um país diferente, retirar as suas tropas do Médio Oriente e deixar de apoiar Israel. Eles não querem fazer nada disso. Assim se desvia a atenção das pessoas, e esse desvio da atenção é a guerra contra o terrorismo.

Contracorriente: Estava a falar da política externa depois do 11 de Setembro. Qual o seu significado na sociedade norte-americano? Refiro-me à Lei Patriótica que suprimiu as conquistas obtidas pelos movimento cívicos. Há alguma repercussão nos Estados Unidos?

HZ: O que sucedeu depois do 11 de Setembro foi o que sempre acontece quando há uma crise e os Estados Unidos entram em guerra. O Governo diz ao povo: “Estamos numa crise, esta é uma situação especial, não podemos ter as mesmas liberdades, a mesma liberdade de expressão, a Constituição tem que ser posta de lado, a Declaração dos Direitos Fundamentais tem que ser posta de lado, porque esta é uma emergência”. Isto acontece sempre; sempre que há uma emergência o governo suprime a liberdade de expressão. Na Primeira Guerra Mundial os Estados Unidos prenderam cerca de 1.000 pessoas que opinavam contra a guerra. Agora, com o 11 de Setembro, com a guerra contra o terrorismo, com esta crise, que é quase irreal porque há terrorismo em toda o mundo, mas artificial e em certo sentido engrandecido, exagerado, o governo começa a agir contra a Constituição norte-americana, aprisiona pessoas sem reconhecer os seus direitos constitucionais. A Constituição norte-americana não permite prender pessoas, mantê-las detidas e que nunca mais se ouça falar delas. Pressupõe-se que tenham advogados, pressupõe-se que tenham penas e que se saiba quais são essas penas, pressupõe-se que tenham julgamentos, audiências. Não só prendem milhares de pessoas, como não lhes fazem nenhum julgamento, não têm advogado. O Congresso aprovou o que se chama a Lei Patrióticas. É muito interessante que sempre dão a este tipo de leis nomes falsos: Leis Patriótica. A Lei Patriótica dá mais poder ao FBI para interferir na opinião privada, na vida privada das pessoas; Dá ao FBI o direito de verificar os antecedentes das pessoas, dá-lhes o direito de ir às bibliotecas e perguntar que livros se emprestaram, que tenham a ver com o Médio Oriente. Sim, homens do FBI visitaram bibliotecas perguntando quem pediu livros sobre o Islão. Que significa isto? Que alguém que esteja interessado no Islão é um potencial terrorista? É absurdo, mas é assim, o que isto fez foi criar um ambiente de medo, particularmente entre os que não são cidadãos, os que vivem nos Estados Unidos, mas não têm a sua cidadania. São objecto de todo o tipo de repressões, são mais vulneráveis que os cidadãos norte-americanos. Não têm os mesmos direitos. Há milhões de pessoas nos Estados Unidos que não têm a cidadania norte-americana, mas vivem aí e podem ser expulsos por dá cá aquela palha, com o simples estalido dos dedos do Procurador Geral; assim têm de ter medo.

Contracorriente: Estávamos a falar do período do Vietname. Qual é a sua avaliação das diferenças e similitudes entre o Vietname e o Iraque ?

HZ: Bom, há diferenças óbvias. No caso do Vietname, os Estados Unidos enfrentaram não só um movimento rebelde organizado no Sul, mas também um Governo real no Norte que apoiava o movimento rebelde no Sul. No Iraque, os Estados Unidos estão a enfrentar qualquer coisa que, na realidade, se parece mais ao que enfrentava no Vietname do Sul, o movimento guerrilheiro da resistência. Na Guerra do Vietname as baixas dos Estados Unidos foram maiores. A escala da luta, dos bombardeamentos, foi imensa no Vietname. No Vietname, os Estados Unidos perderam 50.000 soldados; no Iraque perderam até agora quase 1.000 soldados. Há diferenças, mas há semelhanças muito sérias. Há uma fundamental, a semelhança fundamental é que no Vietname, os Estados Unidos enviaram tropas em aviões, para o outro lado do mundo, atacar um pequeno país que não estava a ameaçar os Estados Unidos; exactamente a mesma coisa no Iraque. Aqui está este país gigante, os Estados Unidos, com 280 milhões de habitantes, a enviar um exército para o outro lado do mundo, ao Iraque que tem 25 milhões de habitantes, para o bombardear e invadir, e o Iraque não é uma ameaça para ninguém, quando muito para a sua própria gente, para mais ninguém. Esta é que é a semelhança fundamental entre as duas situações. Também há outras: em ambos os casos pode dizer-se que se disseram mentiras enormes ao povo norte-americano sobre o Vietname e agora sobre o Iraque. Também na Guerra do Vietname, o povo dos Estados Unidos começou, lentamente, a aperceber-se que lhe estavam a mentir e, também agora, começou a aperceber-se de que o tempo final é diferente, o tempo final para o Iraque chega mais rapidamente do que para o Vietname. Quanto ao Vietname, passaram-se vários anos até que as pessoas começassem a pensar que a guerra era incorrecta, e que tudo o que lhe diziam era enganoso, isso levou tempo. Na Guerra do Iraque foi muito mais rápido. Além do mais, só se passou um ano desde que os Estados Unidos começaram a Guerra com o Iraque e o povo norte-americano já sabe que toda aquela estória sobre as armas de destruição maciça era mentira e o movimento contra a guerra nos Estados Unidos cresceu mais rapidamente quanto à guerra do Iraque do que quanto à do Vietname.

Contracorriente: Mais rápido, mas não com a mesma força.

HZ: Não tão grande, nem ainda tão amplo.

Entrevistar: Isso porquê?

HZ: É verdade. É importante entender porque foi lento o povo norte-americano a compreender o que está a suceder no Iraque, porque, apesar de tudo, muitos americanos ainda pensam que foram encontradas armas de destruição maciça. Coisa totalmente falsa. A razão é que os media estão a ser mais controlados agora do que aquando da Guerra do Vietname. Os canais de televisão, os jornais estão agora muito mais concentrados nas mãos de algumas corporações poderosas... Onde procuram os norte-americanos as notícias, a informação? De facto, houve recentemente uma sondagem em que perguntaram aos norte-americanos que canal de televisão vêem e o que acreditam disto e daquilo. Verificaram que a maioria das pessoas vêem a Fox News, que é o canal da direita e o de maior audiência e, entre aqueles que viam a Fox News, 80% ainda acreditava que se tinham encontrado armas de destruição maciça no Iraque. Isto mostra o poder que têm os meios de comunicação e é contra isto que temos de lutar, nós e o movimento contra a guerra.

Contracorriente: Temos estado a falar sobre o Vietname e o Iraque. A acção militar dos Estados Unidos foi levada a cabo em nome da democracia e da liberdade. Porquê?

HZ: Como se pode persuadir o povo norte-americano a enviar tropas a 5.000 milhas? Como se pode persuadir o povo norte-americano a invadir uma pequena ilha? Tens de criar palavras-de-ordem... Se leres George Orwell, 1984 , vês como para criar um estado totalitário se usam palavras e frases que oprimem a mente. Então, o Governo diz que estamos a lutar pela liberdade, pela democracia e, inclusivamente, dá nome às guerras, chama-lhes: Operação Liberdade, Operação Preservação da Liberdade. Os norte-americanos acreditam na liberdade e na democracia. Que digo? Toda a gente acredita na liberdade e na democracia. Dizem aos norte-americanos que estão a lutar pela liberdade e pela democracia. Ora bem, aí está uma coisa mais, que creio ser importante: a memória da Segunda Guerra Mundial, ainda muito forte nos Estados Unidos, porque é a guerra geralmente aceite como justa, porque foi realmente pela liberdade e pela justiça, porque foi uma guerra contra o fascismo. A verdade é que a Segunda Guerra Mundial não foi estrita e simplesmente uma guerra pela democracia. Ao fim e ao cabo, quem estava a lutar contra o fascismo? O Império britânico, o império francês, o império norte-americano e a Rússia de Stalin. Estavam mais interessados na democracia e na liberdade? Não, tinham outros interesses. Mas os interesses naquele momento coincidiam com os interesses das pessoas que queriam livrar-se do fascismo. A Segunda Guerra Mundial ainda está muito viva nos Estados Unidos, chamam-lhe a Guerra Boa. Por isso o Governo e a imprensa fazem comparações com a Segunda Guerra Mundial e dizem: “Na Segunda Guerra Mundial lutámos contra Hitler”. Sadam Hussein é Hitler, outro Hitler. Na Segunda Guerra Mundial disseram: “Devemos lutar pela democracia”. Agora também. Fazem estas comparações e estas analogias para apanhar os elementos morais da Segunda Guerra Mundial e transportá-los para todas as guerras incorrectas e injustas que temos feito desde o final daquela guerra.

Contracorriente: E que há com Cuba? A política dos Estados Unidos, desde o princípio, era a de estimular uma mudança de regime em Cuba, mas agora falam abertamente de o fazer.

HZ: Sempre falaram de mudanças de regime e é interessante, os norte-americanos não aprendem com a história que se ensina nas escolas norte-americanas, não aprendem com a história das mudanças de regime. Porque os Estados Unidos têm uma história de mudanças de regime e a questão é quando os Estados Unidos se envolvem em mudanças de regime, qual é o resultado? Podemos regressar a 1898, podemos voltar à guerra contra a Espanha. Isso era uma mudança de regime: Os Estados Unidos desfizeram-se da Espanha. Isso não trouxe a liberdade a Cuba, trouxe o poder norte-americano. É verdade que os Estados Unidos trataram de mudar regimes em todo o mundo, incluindo regimes democráticos, eleitos, no Chile e Guatemala. Muda o regime e qual é o resultado? Ditadura, morte, mas o povo norte-americano não conhece esta história. Os Estados Unidos, como diz, desde sempre quiseram mudar o regime em Cuba. Mas quando se envolveu numa mudança de regime o que esteve por detrás disso? A liberdade e a democracia? Não, o que sempre esteve por detrás disso é os Estados Unidos quererem que o poder seja de governos que estejam submetidos aos seus interesses. Durante a Guerra Fria diziam que queriam derrubar governos comunistas, mas não só governos comunistas, porque o Chile não tinha um governo comunista e a Guatemala tão-pouco. Não querem qualquer governo que não coopere com os Estados Unidos. Assim, o problema com Cuba não é ser marxista, comunista ou socialista. O problema é que Cuba insiste em ser independente, insiste em não se submeter aos Estados Unidos, esse é o problema de Cuba. E o Governo dos Estados Unidos não diz ao povo o que a Revolução Cubana fez pelos cubanos, a saúde, a educação, a cultura. Nada dizem sobre isso e criam a imagem de que Cuba tem um governo que deve ser derrubado. E agora estão mais agressivos, porque querem agradar aos cubanos da Florida.

Contracorriente: Mas antes, quando as pessoas da Florida, quero dizer os cubano-americanos não votavam nas eleições, o governo dos Estados Unidos já tinha uma política de mudança de regime e ninguém votava nas eleições a seguir a 59, a princípio.

HZ: Claro, não é a única razão, mas é a que se deu desde que eles começaram a votar na Florida.

Contracorriente: Sabe que a partir do território dos Estados Unidos, especialmente a partir da Florida, tem havido actividades terroristas contra Cuba desde início, mas agora, Bush diz que aqueles que abrigam um terrorista são eles próprios terroristas.

HZ: Pois, essa é uma forma muito conveniente para atacar qualquer governo que os Estados Unidos queiram atacar, dizer que abrigam terroristas. Então, se vai atacar qualquer governo que abrigue terroristas, tem que atacar os Estados Unidos. Os Estados Unidos albergou terroristas... e participou em actos terroristas. Isto é uma coisa que frequentemente se esquece quando se fala de terroristas. Participaram, como disse, em actos secretos de terrorismo contra Cuba, actos secretos de terrorismo contra a Nicarágua. Durante o governo de Reagan fez-se um acto secreto de terrorismo no Líbano, em que a CIA preparou o carro bomba para explodir numa mesquita em que morreram 80 pessoas. Mas sobre isto ainda quero acrescentar: Há actos de terrorismo cometidos por indivíduos ou grupos que se fanatizam por se sentirem ofendidos, mas os governos que praticam actos terroristas fazem-no em maior escala, porque têm mais recursos, muito mais poder. Os actos terroristas cometidos pelos governos custam muito mais vidas humanas que os actos individuais de terrorismo.

Contracorriente: Temos estado a falar de história e de política. Porque não falamos um sobre si, como escritor de obras de teatro? Marx in Soho , porquê?

HZ: Quando se derrubou a União Soviética em 90, 91, nos Estados Unidos todos disseram: “Ah, isto significa que o socialismo morreu, é o fim do socialismo, isto prova que o marxismo é um fracasso.” Eu não acreditei, primeiro porque não considerava que a União Soviética representasse o verdadeiro socialismo. Havia muita ditadura, muita burocracia, muita supressão da liberdade na União Soviética, por isso, para mim, o marxismo não está morto, agora que já não existe a União Soviética. A ideia de socialismo é para mim muito importante e é uma ideia que devia manter-se viva, por isso pensei como pôr isso em cena. Tinha escrito algumas obras de teatro antes, mas como podia pôr esta em cena? Bom, vou trazer o Marx para que fale, trá-lo-ei donde quer que esteja. Quem sabe onde está? Ele vivia no Soho de Londres, mas as pessoas que o trazem de volta, suponho que um comité, cometem um erro e em vez de o mandar para o Soho de Londres, envia-o para o Soho de Nova Iorque. É uma obra de teatro de um só personagem. Aparece o Karl Marx e diz: Estou aqui para explicar o que é realmente o marxismo e digo-lhes que a União Soviética não era verdadeiramente marxista e que as ideias marxistas sobre o capitalismo são válidas até porque agora estou em Nova Iorque e vejo pessoas vivendo na rua, vejo como as empresas controlam o governo, vejo como as pessoas estão absolutamente controladas pela televisão e a propaganda do governo e, apesar disso, como há diferenças de classe. Sim, as ideias marxistas estão vivas ainda. Quer dizer que o derrube da União Soviética não significa o derrube do socialismo, a ideia de socialismo continua a ser uma boa ideia; que a riqueza do mundo deveria ser distribuída equitativamente entre todos e que o socialismo não significa ditadura, mas liberdade, liberdade de expressão e Marx também quer dizer que o capitalismo é absolutamente desastroso para a maioria das pessoas e para a sociedade, por isso deve ser substituído por uma sociedade socialista que seja verdadeiramente democrática.

Contracorriente: Bom, foi uma grande honra e um grande prazer estar aqui com o senhor. Obrigado pelos seus pensamentos, pelas suas respostas, mas sobretudo por estar aqui.

HZ: Muito Obrigado, para mim foi muito estimulante estar neste momento em Cuba.

Os originais podem ser encontrados em http://www.rebelion.org/noticia.php?id=7998
ou http://lahaine.org/b2/articulo.php?p=4974&more=1&c=1
Tradução de José Paulo Gascão.

Esta entrevista encontra-se em http://resistir.info/ .

sexta-feira, 26 de dezembro de 2008

Loucura eleitoral ao estilo americano

Loucura eleitoral ao estilo americano [originalmente publicado no dia 05/03/2008]

Historicamente, o governo — estivesse em mãos de republicanos ou de democratas, de conservadores de direita ou de liberais de esquerda — sempre fracassou quanto a assumir as próprias responsabilidades, até ser pressionado pela mobilização direta.

Howard Zinn*

Na Flórida há um homem que me escreve há anos (dez páginas manuscritas), apesar de que nunca nos encontramos. Ele me fala dos diversos trabalhos que já teve — guarda de segurança juramentado, técnico em consertos, etc. Já trabalhou de tudo que é jeito, à noite, de dia, conseguindo sustentar sua família com muita dificuldade. Suas cartas estão sempre cheias de raiva, lançam pragas contra nosso sistema capitalista, incapaz de garantir aos trabalhadores "a vida, a liberdade e a busca da felicidade".

Justamente hoje recebi uma de suas cartas, que por sorte não é manuscrita: agora ele usa o correio eletrônico. "Bom, hoje estou escrevendo porque neste país há uma situação calamitosa, que acho intolerável, e tenho que dizer algo sobre isso. Estou realmente enfurecido com esta crise das hipotecas. Estou irritado com isto de que a maioria dos norte-americanos tenham que viver suas vidas em condições de perpétuo endividamento e de que tantos estejam afundando sob tanto peso. Fico furioso, maldita seja! Hoje trabalhei como guarda juramentado, e minha tarefa foi vigiar uma casa que foi embargada e vai a leilão. Abriram a casa para os interessados e eu estava lá, para fazer a vigilância durante as visitas. No mesmo bairro estavam outros três guardas juramentados que faziam a mesma coisa em outras casas. Nos momentos calmos eu ficava ali sentado me perguntando quem seriam as pessoas despejadas e onde elas estariam agora".

No mesmo dia em que recebi a carta, o Boston Globe publicou um artigo intitulado "Milhares de casas embargadas em Massachussets em 2007". O subtítulo declara: "foram embargadas 7.563 casas, quase o triplo que em 2006". Poucas noites antes, a CBS tinha informado que 750.000 pessoas discapacitadas esperam há anos para receber seus pagamentos da assistência social, porque o sistema de previsão tem orçamento insuficiente e não há pessoal suficiente para atender todas as demandas, nem sequer as mais graves.

Histórias como estas podem até aparecer na mídia, mas desaparecem num piscar de olhos. O que não desaparece, o que mantém a imprensa ocupada dia após dia, impossível de ignorar, é o frenesi eleitoral.

Esta paixão toma conta do país a cada quatro anos, porque todos fomos educados na crença de que votar é fundamental para determinar nosso destino, que o ato mais importante que um cidadão pode realizar é ir às urnas, cada quatro anos, para eleger uma das duas mediocridades que já foram escolhidas para nós por outros. É um teste com respostas de seleção múltipla tão limitado, tão trapaceiro, que nenhum professor de respeito seria capaz de utilizá-lo como exame para seus alunos.

E é triste dizer isto, mas a disputa presidencial hipnotizou da mesma maneira a esquerda liberal e os radicais. Todos somos vulneráveis.

Será que é possível, nestes dias, encontrar os amigos e evitar o tema de conversa das eleições presidenciais?

As mesmas pessoas que deveriam estar mais atentas, as que nunca se cansam de criticar a pressão da mídia sobre a consciência nacional, percebem que estão paralisadas pela imprensa, grudadas na televisão, enquanto os candidatos dão tapinhas nas costas e sorriem enunciando uma infinidade de chavões com uma solenidade digna de poesia épica.

Nos chamados jornais de esquerda também, temos que admitir, se presta uma atenção desmedida ao exame minucioso dos principais candidatos. Ocasionalmente se dá uma olhadinha nos candidatos menores, apesar de que todo o mundo sabe que o nosso maravilhoso sistema político democrático não vai deixar que nenhum deles ultrapasse o marco da porta.

Não; não estou adotando uma postura de ultra-esquerda, segundo a qual as eleições seriam totalmente irrelevantes, ou seja que deveríamos nos recusar a votar para preservar a pureza da nossa moralidade. É claro que há candidatos que são um pouco melhores do que outros, e em certos momentos de crise nacional (os anos 30, por exemplo, ou hoje), mesmo uma diferença pequena entre os dois partidos pode ser uma questão de vida ou morte.

Do que estou falando é de um senso da proporção que desaparece com a loucura eleitoral. Você vai ficar do lado de um candidato e contra o outro? Sim, durante dois minutos; o tempo que basta para depositar a cédula na urna.

Mas antes e depois desses dois minutos, nosso tempo, nossa energia, precisamos dedicá-los a instruir, mobilizar, organizar nossos concidadãos em seus locais de trabalho, em nosso bairro, nas escolas. Nosso objetivo deveria ser construir, laboriosamente, pacientemente, mas energicamente, um movimento que, uma vez alcançada uma certa massa crítica, pudesse ter influência sobre qualquer um que estiver na Casa Branca ou no Congresso, para impor uma virada na política nacional nas questões da guerra e da justiça social.

É preciso lembrar que mesmo quando existe um candidato claramente melhor (sim, melhor Roosevelt que Hoover; melhor qualquer um do que Bush), essa diferença vai ficar em nada, a menos que o poder do povo esteja tão firme que para os ocupantes da Casa Branca se torne muito difícil ignorá-lo.

As políticas sem precedentes do New Deal –assistência social, seguro desemprego, criação de vagas de emprego, salário mínimo, subvenções para habitação— não foram simplesmente o resultado da postura progressista de Roosevelt. A administração Roosevelt, quando chegou ao poder, encontrou uma nação efervescente de agitação. O último ano da administração Hoover tinha visto a rebelião do Bônus Army: milhares de veteranos da primeira guerra mundial marcharam sobre Washington para exigir ajudas ao Congresso porque suas famílias estavam passando fome. Houve manifestações de desempregados em Detroit, Chicago, Boston, Nova York e Seattle.

Em 1934, no início do período presidencial de Roosevelt, ocorreram greves em todo o país, incluída uma greve geral em Mineapolis, uma greve geral em San Francisco, centenas de milhares de pessoas cruzaram os braços nas fábricas de têxteis do Sul. Por todo o país surgiram conselhos de operários desempregados. As pessoas, desesperadas, mobilizaram-se de maneira autônoma, obrigando a polícia recolocar os móveis dentro das casas dos locatários despejados e criando organizações de auto-ajuda com centenas de milhares de membros.

Sem uma crise nacional –pauperização econômica e rebelião—, dificilmente a administração Roosevelt teria empreendido aquelas valentes reformas.

Hoje podemos estar certos de que o Partido Democrata, a menos que se enfrente a uma sublevação popular, não vai sair do centro. Os dois principais candidatos à presidência deixaram claro que, se forem eleitos, nem vão acabar com a guerra do Iraque imediatamente, nem vão instituir um sistema de assistência sanitária gratuita para todos.

Não oferecem uma mudança radical com respeito ao statu quo.

Suas propostas não são nada do que o desespero popular exige com urgência, ou seja: a garantia do governo de um trabalho para todos aqueles que precisam, uma renda mínima para todas as famílias, uma ajuda para aqueles que correm risco de ser despejados e ter suas casas leiloadas.

Não sugerem recortes significativos dos gastos militares ou reformas radicais no sistema fiscal que poderiam liberar bilhões, ou até trilhões, para destiná-los a programas sociais para transformar nosso modo de vida.

Nada disto deveria nos causar assombro. O Partido Democrata só rompe com seu conservadorismo histórico, com seu desejo de satisfazer os ricos, com sua predileção pela guerra, quando se encontra com uma rebelião dos de baixo, como aconteceu nos anos 1930 e nos anos 1960. Não deveríamos esperar que uma vitória nas urnas comece a curar o país de suas duas doenças fundamentais: a cobiça do capitalismo e o militarismo.

Por isso, deveríamos nos libertar da loucura eleitoral em que está submersa toda a sociedade, incluída a esquerda.

Sim. Dois minutos. Antes e depois temos que nos mobilizar pessoalmente contra todos os obstáculos que atravessam o caminho da vida, da liberdade e da busca da felicidade.

Por exemplo, os embargos que estão privando milhões de pessoas de suas casas deveriam nos fazer lembrar de uma situação muito parecida ocorrida após a guerra revolucionária [de Independência], quando os pequenos granjeiros, muitos deles veteranos da guerra (como são também hoje muitos dos sem-teto) não podiam se permitir pagar os impostos e foram ameaçados de perder suas terras e suas casas. Eles se reuniram em milhares diante das cortes de justiça e impediram a execução dos leilões.

Hoje, o despejo das pessoas que não conseguem pagar seus aluguéis deveria trazer à nossa memória o que fizeram as pessoas nos anos 1930, quando se mobilizaram e, desafiando as autoridades, fizeram com que os pertences das famílias despejadas fossem colocados novamente em suas casas.

Historicamente, o governo —estivesse em mãos de republicanos ou de democratas, de conservadores de direita ou de liberais de esquerda— sempre fracassou quanto a assumir as próprias responsabilidades, até ser pressionado pela mobilização direta: manifestações de todo tipo pelos direitos dos negros, greves e boicotes pelos direitos dos trabalhadores, rebeliões e deserções dos soldados para terminar com a guerra. Votar é um gesto fácil e de utilidade marginal, mas é um pobre substituto da democracia, que exige a ação direta de cidadãos comprometidos.

* Howard Zinn é co-autor, junto com Anthony Arnove, de Voices of a People's History of the United States. Seu livro mais recente é A Power Governments Cannot Suppress (Um poder que os governos não podem suprimir).


Tradução: Naila Freitas / Verso Tradutores

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quarta-feira, 17 de dezembro de 2008

Do Império à Democracia, por Howard Zinn

Do Império à Democracia, por Howard Zinn

Fonte: The Guardian
Tradução: Agência Imediata

Não devemos desperdiçar 700 bilhões de dólares num resgate, mas usar o “governo forte” naquilo que ele pode fazer melhor – moldar uma sociedade que seja justa e pacífica

A crise financeira atual é uma das estações principais no caminho para o colapso do império americano. O primeiro sinal importante foi o 11 de setembro, quando a nação mais fortemente armada do mundo se mostrou vulnerável a um punhado de seqüestradores.
E agora, outro sinal: ambos os principais partidos na pressa de obter um acordo para gastar 700 bilhões de dólares dos contribuintes que escorrerão pelo ralo de imensas instituições financeiras que são conhecidas por duas características: incompetência e ganância.

Há uma solução muito melhor para a crise financeira atual. Mas ela requer que se descarte aquilo que tem sido considerado “sabedoria” convencional por muito tempo: que a intervenção governamental na economia (“governo forte”) deva ser evitado como uma praga, porque o “livre mercado” guiaria a economia na direção do crescimento e da justiça.

Devemos encarar a verdade histórica de frente: nunca tivemos um “livre mercado”, sempre tivemos intervenção do estado na economia e, de fato, essa intervenção sempre foi bem recebida pelos capitães das finanças e da indústria. Eles nunca tiveram problemas com o “governo forte”, quando esse serviu seus interesses.

Isso começou há muito tempo, quando os pais fundadores se reuniram na Filadélfia em 1787, para esboçar a constituição. O primeiro resgate significativo foi a decisão do novo governo de indenizar pelo valor integral as obrigações do governo praticamente destituídas de qualquer valor em posse dos especuladores. E esse papel de “governo forte”, dando suporte aos interesses das classes “de negócios” continuou através da história da nação.

A lógica de se tomar 700 bilhões de dólares dos contribuintes para subsidiar imensas instituições financeiras é que, de alguma forma, aquela riqueza vai escoar aos poucos, sendo repassada para as pessoas que dela necessitam. Isso nunca funcionou.

A alternativa é simples e poderosa. Pegar essa incrível soma de dinheiro e entregá-la diretamente às pessoas que dela precisam. Deixar que o governo declare uma moratória nas execuções das hipotecas e fornecer ajuda aos proprietários das casas para ajudá-los a pagar suas hipotecas. Criar um programa de empregos federal para garantir trabalho às pessoas que querem e precisam de emprego, e para as quais o “livre mercado” não valeu.

Temos um precedente histórico de sucesso: o New Deal de Roosevelt, que gerou empregos a milhões de pessoas, reconstruindo a infra-estrutura da nação e, contestando os ataque de “socialismo” estabeleceu a previdência social. Isso poderia ser levado mais longe, com “seguro de saúde” – previdência de saúde gratuita – para todos.

Isso tudo vai custar mais de 700 bilhões. Mas o dinheiro está aí. No orçamento militar de 600 bilhões de dólares, uma vez que decidirmos que não seremos uma nação promotora de guerra. E nas contas bancárias infladas dos super-ricos, tributando vigorosamente tanto suas rendas como seus patrimônios.

Quando o grito aumenta, tanto por parte dos republicanos quanto dos democratas, que isso não pode ser feito, por causa do “governo forte” que implica, os cidadãos deveriam gargalhar, apenas. E daí agitar e organizar-se em nome daquilo que a Declaração de Independência prometeu: de que é responsabilidade do governo garantir direitos iguais a todos “à vida, liberdade e busca da felicidade”.
Só uma abordagem ousada como essa poderá salvar a nação – não como um império, mas como uma democracia.

© Guardian News and Media Limited 2008
Howard Zinn é historiador, dramaturgo e ativista social.


FONTE EM PORTUGUÊS CLIQUE AQUI.

Obama: a diferença?


Barack Obama. Foto de Joe Crimmings Photography, FlickRParece que Barack Obama e John McCain estão a discutir em que guerra lutar. McCain diz: mantenhamos as tropas no Iraque até "ganharmos". Obama diz: retiremos algumas tropas (não todas) do Iraque e enviemo-las para combater no Afeganistão, para "ganharmos" aí.

Por Howard Zinn


Como sou alguém que lutou numa guerra (a Segunda Guerra Mundial) e desde então me oponho a ela, devo perguntar: os nossos líderes políticos enlouqueceram? Não aprenderam nada com a história recente? Não aprenderam que ninguém "ganha" numa guerra, mas que centenas de milhar de seres humanos morrem, quase todos civis, muitos deles crianças?

Por acaso "ganhámos" fazendo a guerra na Coreia? O resultado foi um ponto morto, que deixou as coisas como estavam antes: uma ditadura na Coreia do Sul, uma ditadura na Coreia do Norte, mas morreram mais de 2 milhões de pessoas, quase todas civis, lançámos napalm sobre crianças e 50 mil soldados dos EUA perderam a vida.

"Ganhámos" por acaso no Vietname? A resposta é óbvia. Fomos forçados a retirar, mas somente depois de morrerem 2 milhões de vietnamitas, de novo civis na sua maioria, deixamos outra vez crianças sem braços ou sem pernas ou queimadas, além de morrerem 58 mil soldados norte-americanos.

"Ganhámos" na primeira Guerra do Golfo? Na realidade não. É verdade que expulsámos Saddam Hussein do Kuwait, apenas com umas centenas de baixas norte-americanas, mas matámos dezenas de milhar de iraquianos nesse processo. E as consequências foram fatais para nós: o facto de Saddam continuar no poder levou-nos a pôr em prática sanções económicas que conduziram à morte de centenas de milhar de iraquianos (de acordo com funcionários das Nações Unidas) e levantaram o cenário de uma nova guerra.

No Afeganistão, declarámos "vitória" sobre os talibans, mas os talibans estão de regresso, os ataques aumentam e as nossas baixas no Afeganistão já excedem as do Iraque. Porque pensa Obama que se enviarmos mais tropas para o Afeganistão obteremos a "vitória"? E mesmo se assim fosse, no sentido militar imediato, quanto duraria isso e a que custo em vidas humanas de ambos os lados?

O recrudescimento dos combates no Afeganistão é um bom momento para reflectir sobre como começou o nosso envolvimento aí. Permitam-me dirigir algumas observações aos que dizem, como muitos outros, que atacar o Iraque foi errado, mas que atacar o Afeganistão foi correcto.

Regressemos ao 11 de Setembro. Uns sequestradores dirigem os aviões que têm em seu poder contra o Centro de Comercio Mundial e o Pentágono, e matam 3 mil pessoas. Um acto terrorista, indesculpável por qualquer código moral. A nação está enfurecida. O presidente Bush dá ordem de invadir e bombardear o Afeganistão e uma onda de aprovação percorre o público norte-americano tolhido de medo e raiva. Bush anuncia então a sua "guerra contra o terror".

Todos (excepto os terroristas) estamos contra o terrorismo. Deste modo, uma guerra contra o terrorismo soa bem. No calor dos acontecimentos, os norte-americanos não consideraram que não tínhamos sequer ideia de como fazer a guerra contra o terrorismo, e tão pouco Bush a tinha, pese às suas bravatas.

É verdade, aparentemente a Al Qaeda - um grupo de fanáticos, relativamente pequeno mas implacável - era o responsável. E havia evidências de que os seus líderes, Osama Bin Laden e outros, tinham a sua base no Afeganistão. Mas não sabíamos exactamente onde. Desta forma, invadimos e bombardeamos o país inteiro. Isso fez que muita gente se sentisse "justiceira": "Tínhamos de fazer alguma coisa", escutávamos as pessoas dizer.

Sim, tínhamos de fazer alguma coisa. Mas não sem pensar, não de forma irresponsável. Por acaso aprovaríamos que um chefe de polícia, sabendo que havia um criminoso acoitado em algum sítio dum bairro, ordenasse o bombardeamento de todo o bairro? Isto rapidamente deu origem a que o total de mortos civis no Afeganistão ultrapassasse os 3 milhares - excedendo o número de vítimas do 11 de Setembro. Numerosos afegãos tiveram de abandonar as suas casas e converteram-se em refugiados ambulantes.

Dois meses depois da invasão do Afeganistão, um repórter do Boston Globe descreveu uma criança de 10 anos que jazia num hospital: "Perdeu os olhos e as mãos devido a uma bomba que explodiu em sua casa logo a seguir à refeição dominical". O médico que o tratava disse: "Os Estados Unidos devem pensar que ele é o Osama. Mas ele não é o Osama, porque lhe fazem isto?"

Deveríamos perguntar aos candidatos presidenciais: a nossa guerra no Afeganistão, que ambos aprovam, põe fim ao terrorismo ou provoca-o? A guerra não é em si mesma terrorismo?

Poderia assumir-se, do que acima se disse, que não vejo diferença entre McCain e Obama, que os vejo como equivalentes. Não é assim. Há uma diferença, que não é suficientemente significativa para me dar confiança em Obama como presidente, mas é suficiente para votar por Obama na esperança de que derrote McCain.

Seja quem for o presidente, o factor crucial de uma mudança é que exista agitação suficiente num país a favor da mudança. Suponho que Obama pode ser mais sensível que McCain a essa agitação, dado que ela virá dos seus simpatizantes, dos entusiastas que mostraram a sua desilusão saindo à rua. Franklin D. Roosevelt não foi um radical, mas era mais sensível à crise económica do país e mais susceptível à pressão oriunda da esquerda do que Herbert Hoover.

Mesmo para os mais "puros" dos radicais, deve ser possível reconhecer as diferenças que podem significar a vida ou a morte de milhares. Em França, durante a guerra da Argélia, a eleição de De Gaulle - que não era de todo um anti-imperialista mas estava consciente do inevitável declinar dos impérios - foi significativa para pôr fim àquela prolongada e brutal ocupação.

Não tenho dúvida alguma de que o mais sábio, o mais confiável, o mais íntegro de todos os candidatos recentes é Ralph Nader. Mas penso que é um desperdício da sua força política, um acto insignificante, desgastá-lo na arena eleitoral, em que o resultado só pode ser visto como prova de debilidade. O seu poder, a sua inteligência, apoiam-se na mobilização das pessoas fora das urnas eleitorais.

Por isso, sim, votarei por Obama, porque o sistema político corrupto não me oferece outra opção, mas só por um momento: quando accionar o dispositivo apropriado na cabina de voto.

Antes e depois desse momento, quero usar toda a minha energia para fazer com que reconheça que deve desafiar os pensadores tradicionais e os interesses corporativos que o rodeiam, e prestar homenagem aos milhões de norte-americanos que querem uma mudança de verdade.

Uma clarificação final. As lições que retiro da História quanto à futilidade de "ganhar" não devem ser entendidas no sentido de que o que está mal na nossa política no Iraque é que não possamos "ganhar". Não é que não possamos ganhar. É que não deveríamos ganhar, porque não é o nosso país.

Howard Zinn é historiador, cientista político, crítico social, dramaturgo, socialista e activista norte-americano. O seu livro mais conhecido é "A História do Povo dos Estados Unidos". Autor de mais de 20 livros, é professor emérito de ciência política da Universidade de Bston.

Tradução (para castelhano) de Ramón Vera Herrera, do La Jornada . Tradução para português de José Pedro Fernandes

Retirado de The Progressive, Outubro de 2008. Reproduzido pelo La Jornada com consentimento expresso do autor.


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